Defendo a mudança para idioma brasileiro

Ao iniciar a especialização em Linguística, com ênfase em Revisão de Textos eu já tinha em mente sobre o que seria meu TCC. Sou muito curiosa em conhecer sempre mais sobre as línguas africanas que influenciaram a formação do português falado no Brasil. Em muitas das leituras que fiz para referência do artigo científico encontrei renomados linguistas se referindo ao português daqui como idioma brasileiro. Durante a pesquisa, cheguei à conclusão (concordei, na verdade) que já chegou a hora de o nosso idioma conquistar sua independência. Entretanto, nunca expressei minha opinião porque sou uma formiga entre os especialistas da área de Linguística, preferi ficar calada.

Hoje, lendo um artigo que recebi pelo Portal Brasiliano, deparei-me com um texto que me deixou muito aliviada – e feliz – por não me sentir sozinha com essa opinião. O texto é de Marcos Bagno. Não vou redigir seu currículo lattes porque é extenso, prefiro que cliquem aqui, caso haja interesse. Mas só pra causar mais curiosidade, ele é doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP.

Abaixo segue o texto no qual ele fala sobre essa questão de se já não podemos nominar nosso idioma como brasileiro.

 

PORTUGUÊS OU BRASILEIRO? NÃO EIS A QUESTÃO

Por MARCOS – 10/06/2013 às 09:42

O ato social, cultural e político de nomear uma língua é um processo muito mais complexo e conflituoso do que a maioria das pessoas imagina. Antes de tudo, justamente por ser um ato político, ele escapa alegremente do domínio restrito dos especialistas em linguística e exige uma abordagem sócio-histórica bem embasada. E quando aplicamos essa abordagem às diferentes situações sociolinguísticas do mundo, encontramos, no mínimo, duas tipologias bem distintas: (1) línguas iguais com nomes diferentes e (2) línguas diferentes com nomes iguais.

Para ilustrar o tipo (1), vamos examinar o caso do híndi e do urdu. O urdu é a língua oficial do Paquistão. Como língua falada, o urdu é praticamente indistinguível do híndi, língua oficial mais importante da Índia. A diferença entre as duas línguas está no fato de que o urdu é utilizado como língua escrita por falantes muçulmanos e se escreve numa forma ligeiramente adaptada do alfabeto persa que, por sua vez, é uma variante do alfabeto árabe. O híndi, por sua vez, se escreve no alfabeto devanágari, originalmente empregado para o sânscrito, e é utilizado pelos falantes de religião hindu. A rivalidade histórica entre Paquistão e Índia, que gerou guerras sanguinárias entre os dois países, junto com a divisão religiosa, é o que explica a atribuição de nomes diferentes a um único sistema linguístico.

A situação das línguas da Índia e do Paquistão se reproduz em certa medida na antiga Iugoslávia. Depois da sangrenta divisão da antiga confederação socialista em diferentes pequenos Estados independentes, a língua que sempre se chamou servo-croata recebeu três nomes distintos: sérvio, croata e bósnio. As diferenças entre o sérvio e o croata sempre se restingiram à escrita: os croatas, católicos romanos, empregam o alfabeto latino; os sérvios, católicos ortodoxos, empregam o alfabeto cirílico; os bósnios, muçulmanos, empregam tanto o alfabeto latino quanto o cirílico. Com a criação dos Estados independentes da Croácia e da Bósnia, a língua, que para os linguistas é um sistema único com variedades locais que não impedem a intercompreensão dos falantes, passou a ser designada com nomes distintos, nomes de países, de nações.

A situação se inverte no tipo (2) e fica clara quando analisamos o caso da chamada “língua árabe”. Por razões de natureza religiosa, o que os falantes de “árabe” chamam de “árabe” é a língua na forma como ela se encontrava quando o profeta Maomé redigiu o livro sagrado do Islã, o Corão, no século VII. Essa língua, também chamada de “árabe clássico”, é uma língua morta, não é falada por ninguém como idioma materno, está restrita à literatura religiosa. Nos diferentes países chamados “árabes”, existem formas de falar tão diferentes entre si quanto, por exemplo, o português e o italiano, sem possibilidades de intercompreensão entre seus falantes, e não poderia ser de outra maneira. É uma ilusão ideológica achar que num território imenso, que vai do extremo ocidental da África até a fronteira do Iraque com o Irã, passando por todo o Oriente Médio, se fala uma só e única “língua árabe”.

No entanto, essa ilusão ideológica é sustentada pela própria cultura “árabe” tradicional, já que na maioria dos 22 países “árabes” o sistema educacional se dedica exclusivamente ao ensino do “árabe clássico” e de sua forma mais modernizada, o “árabe-padrão”, enquanto que os chamados “dialetos” particulares falados nos diferentes países não recebem apoio institucional nem são valorizados, embora sejam as verdadeiras línguas maternas nacionais. É inconcebível que 300 milhões de pessoas, distribuídas por um território tão dilatado, falem uma mesma e única língua “árabe”.

O caso do português também entra nessa segunda situação, ou seja, línguas diferentes do ponto de vista estrutural e dos usos (fonológico, morfossintático, semântico, pragmático etc.), mas que recebem o mesmo nome. Já sabemos que o nome das línguas não depende das opiniões dos especialistas. No caso do Brasil, ocorreu, na década de 1930, uma tentativa de designar a nossa língua majoritária como “brasileiro”, mas o projeto de lei que previa essa designação se afogou no meio do turbilhão político que acabou por instituir o Estado Novo e a ditadura de Getúlio Vargas.

Uma análise racional pode partir da seguinte pergunta: por que, 500 anos depois do desmoronamento do Império Romano, a bibliografia especializada já reconhece a existência de “línguas” como o francês, o castelhano e o português, mas não reconhece, 500 anos depois da expansão marítima portuguesa, a existência de diversas “línguas” derivadas do português quinhentista? Por que a mesma porção de tempo vale para uma classificação (línguas românicas: francês, espanhol, português etc.) mas não vale para outra (“variedades” do português)?

As pesquisas linguísticas empreendidas no Brasil têm demonstrado amplamente que o português europeu e o português brasileiro já são duas línguas diferentes, tanto do ponto de vista estrutural (fonológico, morfossintático, semântico), quanto do ponto de vista pragmático, discursivo etc. Seja qual for o nome que se dê a cada uma dessas línguas, o importante é reconhecer sua diferença e, principalmente, reconhecer que o português brasileiro é uma língua plena, autônoma, um sistema linguístico perfeitamente regrado e que nada tem de inferior a língua nenhuma do mundo, muito menos ao português europeu. Pelo contrário, o português brasileiro apresenta características únicas, que atraem a atenção dos linguistas estrangeiros, intrigados com esses fenômenos estruturais que isolam a nossa língua dentro do conjunto geral das línguas românicas.

A designação da nossa língua como português ou brasileiro depende única e exclusivamente de continuarmos ou não amedrontados por um fantasma colonial que teima em assustar ideologicamente aqueles que ainda consideram o povo brasileiro uma “mistura de raças” e, por isso, um povo incapaz de ter sua língua própria.

 

Fontes: Portal Brasiliano, MEC

 

Published in: on 23/01/2014 at 00:53  Deixe um comentário  

Minha primeira nota colaborativa

Quero compartilhar com todos minha nota colaborativa no site Afreaka.

Espero que gostem.

A influência das línguas africanas no português brasileiro: http://www.afreaka.com.br/notas/a-influencia-africana-na-formacao-da-lingua-portuguesa-no-brasil/

Published in: on 12/01/2014 at 21:51  Deixe um comentário  

Visita ao Museu Afro Brasil: um pouco mais da cultura afro-brasileira

Minha visita ao Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, rendeu muito assunto. Confesso que ainda sinto vontade de voltar e ver tudo novamente, de tão encantador que é. Além de toda a história da vida dos negros escravos aqui no Brasil, esse museu reserva uma grande variedade de quadros, esculturas e relíquias de grandes artistas que podemos passar horas observando e apreciando cada detalhe.

Logo na entrada, encontra-se uma exposição de vinis do artista nigeriano Fela Anikulapo Ransome Kuti. Fela registrou sua história no mundo da música também como compositor; foi o criador do Afrobeat e ativista político e dos direitos humanos.

Logo adiante, há uma variedade de quadros de diversos artistas, entre eles Yeda Maria, Benedito José Andrade, Arthur Timóteo Costa, João Timóteo Costa. Na terceira parte do museu, está a exposição de Manabu Mabe, Cardoso e Silva, João Alves e Willys.

Depois de todas as obras dos artistas citados acima, está localizado o salão no qual estão as peças, instrumentos, maquinários e tudo que foi utilizado pelos negros escravos no Brasil colônia. Veja post publicado sobre isso aqui.

Na instalação seguinte, onde é preciso subir uma pequena rampa para ter acesso, estão mais quadros, esculturas e cerâmicas. O artista que se destaca na cerâmica, que está presente no Museu, é o Francisco Brennand.

Logo depois quadros de Bori, nos quais as imagens são de pessoas fazendo rituais de oferenda à cabeça. Como esses abaixo:

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Por último, é interessante apreciar vasos e recipientes diversos com linhas de Izidorio Cavalcanti. O artista nasceu em Gameleira, Pernambuco, reside e trabalha e Recife, onde se formou em Desenho Arquitetônico no Liceu de Artes e Ofícios. Trabalhando com arte há 20 anos, explora as mais diversas técnicas e utiliza diferentes linguagens, desde o desenho até a performance. Atualmente, integra o Grupo MAMÃE e BO (Branco do Olho). Participou de diversas exposições coletivas e individuais em São Paulo, Ceará, Paraíba, Goiás, Rio de Janeiro, Florianópolis, Sergipe, Pernambuco e Valência (Espanha).

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Vale a pena reservar algumas horas do dia e conhecer, pessoalmente, tudo que esse museu tem a oferecer sobre a cultura afro-brasileira.

Published in: on 06/01/2014 at 21:24  Deixe um comentário  
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